O "Livro de Aço - Heróis e Heroínas do Brasil" é uma obra que reúne o nome de brasileiros e brasileiras ilustres, considerados heróis e heroínas por suas contribuições significativas para o país.
Após conhecer a história desse Candidata a Heroína da Pátria, não perca a oportunidade de visitar Símbolos Municipais e conhecer o brasão, a bandeira e o hino dos 5.571 munícipios brasileiros.
Esperança Garcia, uma mulher negra, mãe, escravizada. Ela escreveu uma
carta, em 6 de setembro de 1770, endereçada ao governador da capitania do
Piauí. Em ato de insurgência às estruturas que a desumanizavam, ela
denunciava as situações de violência que ela, as companheiras e seus
filhos sofriam na fazenda de Algodões, região próxima a Oeiras, a 300
quilômetros da futura capital, Teresina.
Esperança Garcia possivelmente aprendeu a ler e escrever
português com os padres jesuítas catequizadores. Após a expulsão dos
jesuítas do Brasil, pelo marquês de Pombal e a passagem da fazenda para
outros senhores de escravo, ela foi transferida para terras do capitão Antônio
Vieira de Couto. Longe do marido e dos filhos maiores, usou a escrita como
forma de luta para reivindicar uma vida com dignidade.
Eu sou uma escrava de Vossa Senhoria da administração do
Capitão Antônio Vieira do Couto, casada. Desde que o capitão
lá foi administrar que me tirou da fazenda algodões, onde vivia
com o meu marido, para ser cozinheira da sua casa, ainda nela
passo muito mal. A primeira é que há grandes trovoadas de
pancadas em um filho meu sendo uma criança que lhe fez
extrair sangue pela boca, em mim não posso explicar que sou
um colchão de pancadas, tanto que cai uma vez do sobrado
abaixo peiada; por misericórdia de Deus escapei. A segunda
estou eu e mais minhas parceiras por confessar há três anos.
E uma criança minha e duas mais por batizar. Peço a Vossa
Senhoria pelo amor de Deus ponha aos olhos em mim
ordinando digo mandar ao procurador que mande para a
fazenda aonde me tirou para eu viver com meu marido e
batizar minha filha (MOTT, 2010)2
Esse documento histórico é uma das primeiras cartas de
direito que se tem notícia. É um símbolo de resistência e ousadia na luta
por direitos no contexto do Brasil escravocrata no século XVIII – mais de
cem anos antes de o Estado brasileiro reconhecê-los formalmente.
Esperança Garcia teve uma atuação singular no cenário de
lutas contra a escravidão do povo negro no Brasil. A singularidade reside em
dois aspectos: a resistência, através da luta pelo direito, e a atuação como
membro da comunidade política que a escravizava. Vale destacar que a
mesma conviveu com outras estratégias de resistência e luta contra a
escravidão, como a fuga através dos aquilombamentos, os suicídios e os
assassinatos, formas em que as pessoas escravizadas negavam o
pertencimento à sociedade que as subjugavam, procurando maneiras de
sobrevivência dentro da ordem estabelecida.
Utilizando-se de perspicácia, Esperança Garcia age de forma
singular ao atuar como membro da comunidade, isso se explica pelo fato de
adotar um procedimento que era típico dos súditos do rei, portanto membros da
comunidade política que o mesmo governava, por pedir na carta o que
constava em normas e nos costumes, nada além foi solicitado, portanto, uma
atuação pelo direito. Os dois aspectos, o de ser membro e o de pedir o
legalizado, como memória, informam processos do presente, quais sejam: que
o povo negro permanece submetido a um quadro de agravamento social
cada vez mais amplo e que a resistência pelo direito permanece ao lado
de outras formas de lutas, inclusive as que negam o direito
A carta foi encontrada em 1979 no arquivo público do
Piauí, pelo pesquisador e historiador Luiz Mott. Em reconhecimento da
importância histórica do documento escrito por Esperança, atendendo às
reivindicações do movimento negro no Piauí, a data de 6 de setembro foi
oficializada como o Dia Estadual da Consciência Negra, em 1999.
Em setembro de 2017, duzentos e quarenta e sete anos
depois da escritura da carta, através de solicitação da Comissão da Verdade
sobre a Escravidão Negra do Piauí, Esperança Garcia foi reconhecida pela
OAB/PI como a primeira advogada piauiense.
A narrativa de Esperança é marcada pela indignação e a
coragem de resistir. Denuncia os maus tratos, o autoritarismo e requer o direito
de viver livre de violência para si e para os outros. É uma singular expressão
da luta por direitos humanos que nasce das senzalas, das ruas, dos lugares
onde as sujeitas historicamente oprimidas se insurgem por liberdade e
igualdade.
Conhecer, lembrar e compartilhar a voz de Esperança
Garcia é um imperativo para a luta contra o racismo e por igualdade de
gênero, raça e classe no Brasil. É também alimento para a força e coragem
de resistência do povo brasileiro ao perigo de uma única história, a do
colonizador. É peça fundamental para compor as memórias de luta e resistência do povo negro e construir as caixas amplificadoras de vozes
historicamente silenciadas.
Esperança Garcia é candidata a Heroína da Pátria Brasileira, conforme o Projeto de Lei 4.325/2023, que propõe a inclusão de seu nome no "Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria", também conhecido como "Livro de Aço". Esse livro está localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, Distrito Federal, e tem como objetivo homenagear brasileiros e brasileiras que contribuíram de forma notável para a história do país.
Registro atualizado em 02/05/2026 16:38, visualizado 381 vezes.