O "Livro de Aço - Heróis e Heroínas do Brasil" é uma obra que reúne o nome de brasileiros e brasileiras ilustres, considerados heróis e heroínas por suas contribuições significativas para o país.
Após conhecer a história desse Candidatos a Heróis da Pátria, não perca a oportunidade de visitar Símbolos Municipais e conhecer o brasão, a bandeira e o hino dos 5.571 munícipios brasileiros.
A Insurreição de Queimado, ocorrida em 19 de março de 1849 na Freguesia de São José de Queimado, hoje município de Serra no Espírito Santo, foi um evento significativo na história do Brasil e do Espírito Santo, pois foi uma das poucas revoluções protagonizada por negros escravizados em busca de sua liberdade, além de ter sido uma das maiores com este objetivo. A insurreição teve como principais líderes identificados Francisco de São José (Chico Prego), Elisiário Rangel e João Monteiro (João da Viúva), que lutaram contra as forças militares brasileiras, mesmo sabendo que suas vidas estavam em risco. Encontram-se relatos da revolta nos livros: “A Insurreição de Queimado” do escritor Afonso Cláudio de Freitas, “Enciclopédia Negra: biografias afro-brasileiras” dos escritores Flávio dos Santos Gomes, Jaime Lauriano e Lilia Moritz Shwarcz, e “Revolta de Queimado: Negritude, Política e Liberdade no Espírito Santo” da Professora Lavinia Coutinho Cardoso.
A revolta teve como estopim a falsa promessa, feita por fazendeiros, de que seriam libertos aqueles que trabalhassem na construção de uma igreja na então vila de São José do Queimado, hoje a cidade de Serra, o que não ocorreu. Este fato se soma a leitura dos próprios revoltosos do momento que apontavam para a possibilidade de que uma insurreição seria vitoriosa, visto que as forças policiais tinham dificuldades em reprimir a formação de novos quilombos na região, bem como a própria repressão ao tráfico negreiro e a pressão pelo fim da escravidão no país que vinha se fortalecendo, como apontou Gomes, Lauriano e Shwarcz.
[...] Chamei pra relatar
O que o padre falou
Disse que alforria
Nossos donos não aprovou.
E que fez imploração,
Em nome da religião,
Mas de nada adiantou.
Traçou um plano
Pra gente executar:
Ir aos donos dos cativos,
Ir pra convencer, tentar
Preencher a assinatura
Neste Papel, sem rasura,
Para se documentar.
E depois do preenchimento,
Fazendo toda a rotina,
Colhendo as assinaturas
Dessa raça suína,
Damos ao padre Zé Maria,
Pra tratar da alforria
Com a rainha Dona Cristina.
Com aquela decisão
Do grande Eliziário,
Alguns chefes duvidaram,
Não aprovaram o cenário.
“Os brancos tão furiosos!”
(Disse Chico, já nervoso)
“É mais uma do vigário.”
Foi aí que a sentinela
A Eliziário bradou:
“Desculpa, meu grande chefe,
A liberdade gorou.
Os negros foram traídos,
Foi negado o prometido,
O seu comando falhou,”
Ele então foi repelido
Por Josino, retrucando:
“Recolhe a arma, abusado,
A chefia está mandando!...
Cativo desatinou?
“Pois já cativo não sou!
Nem reconheço o comando!”
Insurreição do Queimado em poesia de cordel – Teodorico Boa Morte
O movimento foi caracterizado por extrema violência na contenção, por parte da Polícia da Província. A maioria dos escravos foi brutalmente assassinada e seus corpos jogados na hoje chamada “Lagoa das Almas”. Os cativos presos foram julgados condenados em ação sumária. As autoridades capixabas temiam que a história da revolta se espalhasse pela província e incentivassem novas insurreições, desta forma os 38 presos pela revolta foram “exemplarmente” punidos por seus “senhores”.
Alguns sobreviventes fugiram para o município de Cariacica, onde fundaram o Quilombo de Rosa d’ Água. Chico Prego e João da Viúva foram enforcados, mas Elisiário protagonizou uma lendária fuga, ocasião em que saiu da cela sem sinais de arrombamento, que foi considerado pelos escravos como um milagre atribuído a Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo. Depois se soube que o carcereiro, penalizado com os maus tratos impostos aos negros facilitou a fuga, o que não retira o feito e a crença na intercessão divina.
Elisiário tornou-se uma lenda para os negros que sonhavam com a liberdade, e foi alcunhado como o “Zumbi da Serra”, em alusão ao herói do Quilombo dos Palmares. Chico Prego ganhou estátua em uma praça no município da Serra, e seu nome batiza a Lei Municipal de Incentivo à Cultura.
A insurreição de Queimado foi um momento importante na luta pela abolição da escravatura no Brasil, pois apresenta o protagonismo dos próprios escravizados por sua libertação, por trazer à tona a luta por liberdade e independência de um povo frente às injustiças. Além disso, demonstra uma importante leitura do momento político e social, que permitiu uma articulação política dos próprios escravizados para viabilizar a sua libertação.
Conforme descreve a Professora Lavinia Cardoso, “A Insurreição de Queimado constitui um movimento de trabalhadores negros escravizados inseridos em uma complexa rede social e cultural heterogênea”.
Destaque-se que a singularidade dessa Insurreição se dá pelo fato de que os insurgentes tinham como objetivo a liberdade, a ser conquistada através de um plano que se baseava na legalidade. Não havia a intenção de ruptura do sistema, mas a inclusão social daqueles trabalhadores e trabalhadoras, como demonstra a Professora Lavinia, teria reconhecida a sua capacidade de negociar sua força de trabalho diretamente.
Heróis da Insurreição de Queimado são candidatos a Heróis da Pátria Brasileira, conforme o Projeto de Lei 2.370/2023, que propõe a inclusão de seu nome no "Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria", também conhecido como "Livro de Aço". Esse livro está localizado no Panteão da Pátria e da Liberdade Tancredo Neves, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, Distrito Federal, e tem como objetivo homenagear brasileiros e brasileiras que contribuíram de forma notável para a história do país.
Registro atualizado em 05/05/2026 23:38, visualizado 131 vezes.